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| MANDIOCA EM CENÁRIO DE ABUNDÂNCIA: NOVAS PERSPECTIVAS PARA OS PRODUTORES BRASILEIROS |
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por Ribamar Mesquita - Fortaleza (outubro de 2011) Dois fatores recentes trouxeram novas perspectivas para os produtores de mandioca no Brasil: as alterações no comércio internacional do amido e a tendência de maior uso desse produto pela indústria ante a preocupação crescente do consumidor quanto a alimentos saudáveis. A tendência do mercado para a farinha de mandioca é de uma pequena queda a ser compensada pelo aumento da demanda por fécula. No Nordeste, onde a previsão é de crescimento da produção, é preciso melhorar a produtividade e estimular pesquisas visando a agregar valor e tornar o produto mais atraente e economicamente viável, sobretudo, para os agricultores familiares que são os maiores responsáveis pelo cultivo da raiz.
O Nordeste precisa melhorar a produtividade da mandioca e estimular pesquisas visando a agregar valor e tornar o produto mais atraente e economicamente viável, sobretudo, para os agricultores familiares que são os maiores responsáveis pelo cultivo da raiz. Precisa também se preocupar com o desenvolvimento de máquinas eficientes destinadas a fecularias e casas de farinha, com a capacitação de seus proprietários e com tecnologias para o aproveitamento da raiz e de resíduos como a manipueira, rico em gás metano. Grosso modo, a cultura ainda é tratada com certo desdém a despeito de sua imensa relevância social em regiões pobres como o Norte/Nordeste brasileiros, de poder ser produzida em qualquer tipo de solo, de sua resistência à seca, pragas e doenças, de interferir relativamente pouco no meio ambiente e ser fonte de matéria–prima importante para alimentação humana e animal e muitas indústrias (alimentos embutidos, embalagens, colas, mineração, têxtil, papel e farmacêutica). De acordo com estudo setorial realizado pelo BNB-ETENE,disponível no endereço www.bnb.gov.br/etene/publicações, a tendência do mercado para a farinha de mandioca é de uma pequena queda. Contudo, deve aumentar a demanda por fécula para usos alimentares e outras finalidades industriais, com crescimento da participação brasileira no mercado de amidos modificados. No geral, o IBGE previa para 2010 aumento da produção nacional de mandioca em 5%, de 26,2 para 27,5 milhões de toneladas e uma leve melhoria (1,2%) na produtividade, de 14,01 para 14,17 t/ha. No Nordeste, deverá ocorrer expansão enquanto no Sul a perspectiva é de redução tanto na área cultivada quanto na produção. Oportunidades e ameaças Segundo o agrônomo Jackson Coêlho, pesquisador do BNB-ETENE, alguns fatores recentes trouxeram novas perspectivas para a mandiocultura brasileira. É o caso, por exemplo, de alterações nas regras do comércio internacional do amido, que vão implicar mais oportunidades de exportação, ou da tendência de maior uso do amido pela indústria ante a preocupação crescente do consumidor quanto a alimentos saudáveis. Outro aspecto positivo lembrado pelo pesquisador é o desenvolvimento de cultivares adequados a cada finalidade e já em processo de disseminação, os quais propiciarão produtos de melhor qualidade e rendimento. Jackson agrega ainda três fatores que deverão favorecer bastante a cultura da mandioca no Brasil: o surgimento da verticalização no sistema agroindustrial, aproximando produção e processamento; a possibilidade de utilização da raiz de mandioca na produção de biocombustível (etanol); e a fabricação de novos produtos comestíveis, como os chips de mandioca. No capítulo das ameaças, ele relaciona o poder de barganha das redes varejistas, que conseguem impor preços baixos aos pequenos produtores de farinha e fécula; a demanda inelástica da farinha, em virtude do comportamento do consumidor; a existência de bens substitutos para o consumo (no caso da farinha, as massas, e no caso da fécula, o amido de milho); a facilidade de mudança da matéria-prima no processamento industrial; e a competição por terras e risco de desemprego de trabalhadores rurais com a chegada da cultura da cana-de-açúcar, visto que esta é mais lucrativa e mecanizada. 228 milhões de toneladas, presença em 100 países O Brasil é o segundo maior produtor mundial de mandioca, atrás da Nigéria, mas a planta está presente numa centena de países e alimenta mais de meio bilhão de pessoas mundo a fora. Considerados apenas os sete maiores produtores, cuja população ultrapassa 750 milhões de habitantes, a produção de mandioca pulou de 192,8 milhões toneladas métricas, em 2002, para 228,1 milhões cinco anos depois. Isso ocupando uma área de 18,6 milhões de hectares, mais ou menos o equivalente aos estados de Pernambuco, Alagoas e Paraíba, juntos. O Brasil participou com apenas 12% desse volume, em 2007, ou 27,3 milhões de toneladas, conseguidas em 1,9 milhão de hectares. Nas últimas cinco safras a área colhida no Brasil sofreu leves decréscimos, após a alta de 8% entre 2003 e 2005, fato diretamente relacionado com oscilações de preço e aumento da área plantada com culturas concorrentes que oferecem melhor rentabilidade. Em termos regionais, Norte e a Nordeste lideram o cultivo da mandioca, sobressaindo-se os estados do Pará, com 304,9 mil hectares; Bahia (336.000 ha) e Maranhão (222.500 ha), estado onde a cultura teve expansão contínua desde o início da década passada. As duas regiões têm em comum um alto consumo do produto e sistemas de exploração de baixa tecnologia, em geral consorciados com feijão e milho; baixa produtividade média (14,9 t/ha e 10,8 t/ha, respectivamente), em contraste com as regiões Sul e Sudeste, onde o cultivo tem um caráter mais industrial e os índices alcançam 19 e 18,4 t/ha, respectivamente. A identidade de Norte e Nordeste também se manifesta quanto ao reduzido volume exportado. De fato, o levantamento da equipe do BNB mostra nesse quesito a primazia é de Sul e Sudeste em função do peso nas vendas de fécula, produto mais elaborado e com maior agregação de valor. No total as exportações de fécula e farinha no Sul e Sudeste, em 2009, somaram US$ 4,9 milhões. No Norte, totalizaram pouco mais de US$ 1 milhão, sendo US$ 726,2 mil de fécula e US$ 281,2 mil de farinha. No Nordeste, houve exportação de apenas US$ 18,7 mil em farinha, por parte da Bahia, e de US$ 56,4 mil em raiz, pela Paraíba. Comparados a países como a Tailândia, por exemplo, cuja indústria mandioqueira rende divisas em torno de US$ 1,4 bilhão anuais, os números modestos do Brasil comprovam o quanto o mercado internacional está fora de foco de produtores e industriais. R$ 5,6 bilhões na última safra nacional O quadro de produção, hoje centrado nos agricultores familiares, alterna crescimentos e quedas, em função principalmente do movimento dos preços. Segundo em área colhida, o estado do Pará é o maior produtor nacional de mandioca e registrou queda de 8% nas duas últimas safras. Fora do Norte e Nordeste, a expressão maior em mandioculura é o Paraná, terceiro maior produtor e o quarto estado em área colhida, seguido do Rio Grande do Sul e São Paulo. A penúltima safra brasileira (2007/08) contabilizou 26,7 milhões de toneladas para uma receita bruta de R$ 5,6 bilhões. Desse total, 9,8 milhões de toneladas (R$ 1,8 bilhão) correspondem à participação do Nordeste. Estima-se que as atividades relacionadas com o cultivo da mandioca gerem cerca de um milhão de empregos diretos no Brasil. No caso dos preços, em âmbito internacional a cotação da raiz permaneceu relativamente estável nos últimos seis anos, exceto na Nigéria onde houve uma escalada no período 2000/06. No Brasil, conforme Jackson Coêlho, observa-se grande variação devido a aspectos relacionados com o ciclo da cultura, a estrutura de mercado e a atuação de intermediários. Para o pesquisador, a tendência atual é de alta na Bahia (R$ 216,00/t em outubro último) e em Pernambuco (R$ 181,00/t), de estabilidade no Ceará (R$ 152,00/t) e de queda na Paraíba (R$ 150,00/t). Cenário e Recomendações • Apoiar e difundir pesquisas para viabilizar máquinas mais eficientes para as casas de farinha e fecularias, a fim de se obter um produto de melhor qualidade; • Fortalecer a cadeia produtiva, principalmente dos mini e pequenos produtores, garantindo sobrevivência de milhares de famílias; • Promover a capacitação gerencial de pequenos proprietários de casas de farinha, melhorando a gestão de seus negócios, a manutenção e a ampliação de empregos; • Difundir técnicas de preparo da raiz e opções na agregação de valor, como o processamento mínimo que possibilite maior conservação e tempo para comercialização, além de facilitar preparo da raiz; • Fomentar pesquisa sobre manejo da manipueira, resíduo tóxico rico em gás metano, visando seu aproveitamento na geração de gás e energia em biodigestores; • Promover ações, junto às superintendências estaduais e agências, no sentido de reduzir a inadimplência, e por consequência, o prejuízo. Pontos Fortes da Mandiocultura • Adaptação em todos os estados do Brasil; • Relevância para a agricultura familiar e na geração de emprego e renda (1.000.000 de empregos diretos); • Fonte de matéria-prima importante para alimentação humana e animal e para a indústria (alimentos, embutidos, embalagens, colas, mineração, papel, têxtil e farmacêutica); • Boa tolerância à seca; • Importância histórica na segurança/dieta alimentar do brasileiro através da farinha, fonte de carboidrato de baixo custo; • Resistência a pragas e doenças e facilidade de cultivo, exigindo pouco em termos de manejo e tecnologia. • Versatilidade nas aplicações industriais da fécula, principalmente nos segmentos de alimentos, têxtil e de papel, devido às suas características físico-químicas. Pontos Fracos • Baixas margens sobre o custo de produção, em virtude do reduzido valor agregado da fécula e farinha, o que implica aumento da escala de produção, inviável aos pequenos produtores; • Pouco investimento na melhoria da qualidade dos produtos, tecnologia e produtividade, em função das baixas margens obtidas; • Grandes oscilações de preço da raiz de mandioca; • Cadeia produtiva desarticulada, principalmente em razão da conduta individualista dos agentes; • Carência de políticas públicas adequadas ao desenvolvimento da cadeia produtiva; • Falta de padronização dos produtos, afetando sua qualidade; • Pouco interesse no mercado externo para o produto e seus derivados, deixando as exportações muito abaixo de seu potencial; • Alta informalidade, dificultando dados confiáveis sobre produção e consumo. Oportunidades • Alterações recentes nas regras do comércio internacional do amido de mandioca, gerando novas oportunidades para exportação; • Pesquisas tecnológicas sobre novas modificações do amido, com ênfase em processos naturais, o que aumenta a diversificação de seu uso; • Desenvolvimento de cultivares adequados a cada finalidade que em breve chegarão às propriedades rurais, propiciando um produto de melhor qualidade e rendimento; • Verticalização no sistema agroindustrial, aproximando produção e processamento; • Possibilidade de utilização da raiz de mandioca na produção de biocombustível (etanol); • Fabricação de novos produtos comestíveis, como os chips de mandioca. Ameaças • Crescente poder de barganha das redes varejistas, que impõem preços baixos aos pequenos produtores de farinha e fécula, reduzindo suas margens em relação aos custos de produção; • Demanda inelástica da farinha, em virtude do comportamento do consumidor; • Existência de bens substitutos para a farinha (as massas) e a fécula (o amido de milho) e de facilidade de mudança da matéria-prima no processamento industrial; • Existência de competição por terras e risco de desemprego de trabalhadores rurais onde chega a cultura da cana, mais lucrativa e mecanizada. Sete mil variedades A mandioca é uma grande fonte de carboidrato e betacaroteno (composto da vitamina A) de baixo custo, o que releva sua significativa importância social em países tropicais de baixa renda. A planta se se desenvolve melhor em solos profundos, com boa aeração e capacidade de armazenamento d'água. Existem aproximadamente sete mil variedades de mandioca com ciclos diferentes entre plantio e colheita: precoces (de 10 a 14 meses), semiprecoces (de 14 a 16 meses) e as tardias (mais de 18 meses). Seu processamento dá-se hoje em três estágios: as casas de farinha rústicas, as pequenas fábricas com algum grau de tecnologia.e a unidade empresarial. Os dois principais produtos derivados da mandioca são a farinha seca, que é a mais consumida, a fécula ou polvilho e a farinha d'água e mista. A farinha, apesar de ser mais voltada ao consumo nacional, e frequentemente local, também é exportada. Um fator importante a considerar na cadeia produtiva é a necessidade da produção e processamento estarem próximos. A fécula, também conhecida como amido é usada para dar consistência em molhos, sopas, comida para bebês, pudins, sorvetes, embutidos, pão de queijo e massas em geral, podendo ser também transformada em cera para polimento de frutas e legumes, alem de uma série de aplicações como na fabricação de perfumes, colas, adesivos e papel. |
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